O
espetáculo Ninjinski – para dentro do
coração de Deus foi apresentado no sábado dia 2 de junho n’A Nave. Um
monólogo representado por André Sarturi e dirigido por Ana Luz. O espetáculo me
fez retomar a reflexão da importância dos processos.
O
teatro, em essência, é uma dízima periódica, no sentindo de que tende para o
infinito. Todos os dias que o ator entra em cena, tem a oportunidade de ir um
pouco mais além, de recriar, descobrir... Pode, obviamente, não fazer -
acomodar-se - mas a possibilidade é latente. Pesquisadores das artes cênicas do
século XX trabalharam esse aspecto de forma explicita - o que se chamou de
“Work in process” - a aceitação da apresentação teatral como obra inacabada. E o
espetáculo Ninjinski segue essa
vertente.
A
impressão que tive (durante os ensaios a tarde, na hora da apresentação e
depois conversando com o grupo) que essa apresentação teve uma importância
relevante. O espetáculo foi criado para ser apresentado na rua, pedindo uma
determinada postura. Assim, para apresentar n’A Nave, o grupo teve que
recriá-lo para sala. Um ato de coragem. Essa mudança radical de espaço abriu um
leque de possibilidades que a rua não proporciona: nuances de texto, movimentos
sutis, trabalho de detalhes, intimidade sentimental, intenções, que quando
interagimos com a imprevisibilidade e a poluição sonora não temos. A rua
certamente abre portas para outros aspectos que, aqui, não vem ao caso.
Para
fazer um trabalho deste nível precisamos desenvolver algumas qualidades.
Qualidades como disciplina, flexibilidade e confiança. O grupo chegou ao espaço
e logo começou o trabalho tanto de adaptar o texto - Ana reescreve concentrada-, transformar o lugar para apresentação jogando
com as possibilidades que o espaço dispõem, ver a luz disponível que não é uma
luz feita especialmente para o espetáculo, e ensaiar, adaptando movimentos, e,
principalmente, intenções que na rua são mais fortes e que para dentro da sala
tornam-se exageradas. Para que tudo flua, o ator tem que confiar na pessoa que
o conduz (o olhar de fora, o diretor). Não é submissão, pois a submissão é
quando não temos consciência do que estamos realizando; estou falando de
flexibilidade e disponibilidade para experimentação a partir da obediência e
confiança.
Chamo
atenção que embora a proposta seja de construção aberta, de adaptação livre,
não é algo de improviso, no sentido de fazer de qualquer jeito. É como o
palhaço: não se improvisa um palhaço, se improvisa com o palhaço. No ator há
uma maleabilidade em decorrência dos elementos em jogo; no entanto, o personagem
tem que estar bem construído. E, no caso, de André Sarturi, era visível a sua
dedicação e a propriedade sobre a construção de seu personagem Ninjinski. Ficou
evidente que a sala o surpreendeu, e na questão da dízima, foi um novo impulso,
o soltar o corpo da beira de um precipício. E o resultado, reverberará na
continuação do processo...
Nenhum comentário:
Postar um comentário